terça-feira, 28 de março de 2017

"Alentejo Prometido"




[Secção leituras] Acabei de ler "Alentejo Prometido" de Henrique Raposo. Aquando da sua publicação, li bastantes críticas ao livro. As boas... e as que chegaram ao ponto de "pedir a cabeça" do autor. Vou conhecendo o seu estilo pelas crónicas no Expresso e Renascença, percebendo que não é amado por muitos que destilam ódio nas caixas de comentários. Sou daqueles que não se fica pela opinião dos outros. Surgem-me as perguntas e, com tempo, tento, se me for possível, fazer o caminho e formular opinião. Um livro que fala do Alentejo, de onde é natural o meu lado materno familiar. Logo, tema que me toca. Li... e começo a perceber onde o autor quer chegar. Há feridas que não se gosta de tocar. As páginas passam e, apesar da dureza, fazem sentido. Sai-se da poesia dos campos primaveris floridos ou dourados de Outono e entra-se no que será o Inverno humano. Não apetece reconhecer de onde vem a dor, mas se não se investiga e afirma ficamos no auto-engano. Talvez o género literário possa sugerir uma projecção da vida do autor, no entanto, é um meio... com o qual eu mesmo poderia colocar outros nomes que conheço. Recordo a minha querida avó Constança falar-me das divisões na Missa: lavradores à frente, sentados em lugares especiais, povo, mulheres sobretudo (ou somente), atrás e de pé. Suicídio, sim, muitas histórias partilhadas. Dificuldades em viver ali, no sol-a-sol da monda ou ceifa, com idas para o Algarve (hotelaria sobretudo) ou sul do Tejo. O livro é duro de real de uma grande parte da população. Talvez esteja em mudança, não conheço para opinar. Mas, das histórias que recebi, o Alentejo de que gosto, humanamente falando, claro, não é dado a muitos romances. Para haver um caminho de cura, de mudança, há que reconhecer o podre, o menos bom, o que não se gostaria de enfrentar. Do que li, mesmo não me identificado com o seu sentimento de não pertença, parece-me uma boa ajuda à Marta e, em especial ao David, a seguirem o caminho da mudança.

Discurso




Foi uma honra discursar para mais de 200 alunos universitários a quem foi atribuída uma bolsa de estudo. Falei do meu sonho de criança, ser veterinário, e das voltas que a vida dá até ser padre (o momento que provocou a reacção de surpresa). Falei-lhes do presente que são e das possibilidades sempre em aberto de mudança do mundo para melhor, com as possibilidades de descobrir rumos novos e abertura de horizontes pelas visitas a sites como UNESCO, Nações Unidas e Comissão Europeia

Apagar fogos...





[Coisas extra-quotidiano na vida de um padre] A última vez que apaguei um fogo físico (os de alma e de relações são muito mais frequentes) foi há 16 anos num refrescamento como comissário de bordo. Hoje voltei ao extintores... numa formação de prevenção. A boa formação na PGA continua bem presente. É caso para dizer "padre on-fire".

domingo, 26 de março de 2017

Rezar com a Dança




“Não esperava que fosse possível chegar tão profundamente a mim através do movimento.” Esta foi um dos “sentires” dito no final de mais um Rezar com a Dança. Desde sexta à noite até hoje ao almoço, 7 pessoas confiaram-se à Maria Luísa Carles e a mim, neste caminho de descoberta de corpo, de dança e de relação com Deus. Por conversas que vou tendo, quando falo desta relação, apercebo-me desde a surpresa aos estereótipos seja sobre a dança, seja sobre o rezar. Enquanto corpo que somos, impressiona-me como ainda se bloqueia ou reduza a dimensão biológica/física, louvando a dimensão intelectual colocando-a no pedestal de supremacia. A maturidade acontece quando as nossas dimensões estão ajustadas e o movimento habitando de consciência autêntica, vulgo dança, permite que tal aconteça. Foi uma feliz coincidência termos vivido o fim-de-semana na solenidade da Anunciação e no domingo da Alegria. Foi bastante intenso. Ainda mais quando se juntou a nós um grupo de partilha sobre a experiências de luto. O corpo em movimento fala muito da pessoa. Exige atenção para ajudar a evoluir nesse encontro com Deus, da dor à alegria. Se estivermos atentos ao nosso corpo, à nossa autenticidade, veremos, tal como o cego de nascença que foi curado (o Evangelho proposto para hoje), a nossa realidade e a de outros com nova luz.

sábado, 25 de março de 2017

Mão em movimento





Neste dia da solenidade da Anunciação, em que oriento, junto com Maria Luísa Carles, um tempo de Rezar com a Dança, 23 segundos de mão que se entrega e reza.

quinta-feira, 23 de março de 2017

Humano




[Secção entardecer de quaresma] O corpo é quem sou. Ou agradeço e caminho à Vida. Ou estagno e sobrevivo às horas. 

Na foto: poema de Adélia Prado.

quarta-feira, 22 de março de 2017

Londres... ou qualquer outro conflito.




Os atentados mais próximos relembram todos os outros distantes. Em conflitos, no final, nunca há vencedores. Todos perdemos. Que a luz consiga atravessar a sombra... que assola a humanidade.

terça-feira, 21 de março de 2017

Dia Mundial da Poesia




Tomasz Tyrka

[Secção entre pensamentos soltos e outros tons] A poesia, falando de oração, tem-se tornado constituinte do meu modo de olhar a vida, o mundo, o ser humano. Fico sempre naquele limbo do inexplicável, que por vezes o silêncio é a melhor resposta. No entanto, deslumbra-me saber que as palavras dão corpo a esse silêncio apenas compreendido por quem sabe parar no caminho e contempla os nadas de fora e o tudo das entranhas. 

Levanta-se o pó,
humedecido com lágrimas  
felizes de paternidade.

Molda-se o coração em escuta
deixando crescer o tempo
de passagem do corvo
até ao ramo de oliveira.

Entrelaçam-se as mãos
de sim misterioso anunciado
em aroma de puro nardo.

E louvando o prémio, mais um justo e merecido, que Maria Teresa Horta ganhou, partilho igualmente um poema, do seu romance “Anunciações” que me faz tanto sentido:

Asas de Poesia

Olhou as suas asas de arcanjo
uma de luto
outra de dia

uma cruel
outra de perda

uma de negrume
outra de meio-dia

E quando Maria
entendeu as palavras
de crivo que lhe eram ditas

começou a criar a sua
identidade própria

a partir da poesia

domingo, 19 de março de 2017

Samaritana





D. Von Schoen

Em dia do pai, Jesus mostra como a paternidade passa pelo reconhecimento da dignidade do outro para além de tudo o que possa ter feito. Como? Pondo a liberdade para além de esquemas mentais, morais e preconceitos religiosos, que se leia, reze, contemple, o encontro d’Ele com a Samaritana. A subtileza das palavras no diálogo desse encontro mostra como acolhe a Mulher que muitos rejeitam (naquele tempo e provavelmente na actualidade), tornando-a discípula e evangelizadora de quem Ele é.

sexta-feira, 17 de março de 2017

Amigos no Senhor






[Secção coisas na vida de um padre] O dia de hoje teve muitas emoções. Há cansaço desta grande Semana, que mexe com tantas pessoas… “P. Paulo, podemos arranjar um tempinho para conversar?” tem sido uma pergunta a surgir com frequência, depois deste ou daquele momento vivido na Semana Inaciana. Parece-me que o melhor mesmo é o agradecimento que sinto pelo grupo do GRAPA. Nestes dias, a disponibilidade que eles tiveram, seja a pendurar um pano, a cortar pegadas em papel, a colocar fios em cruzes num kit, a pôr ketchup em centenas de cachorros, em… “P. Paulo, é preciso mais alguma coisa?”, é impressionante e gratificante. Vamos ser sérios: para quem achar que esta geração está perdida, ou coisas do género, dê um salto até aqui e converse com eles. Vale a pena ser educador. Vale a pena ser professor. Vale a pena ser Amigo no Senhor.

Homenagem...




[FR] Les gens devraient être honorés quand nous pouvons les embrasser. Certaines personnes n'aiment pas ça, ils se sentent malaise de ne pas avoir besoin de montrer qu’ils ont fait bien avec des gestes ou des mots. Mais encore, la vie devrait être pleine d'hommage et des hommages. Chaque « bon jour » devrait être une reconnaissance de l'importance de cette personne sur notre chemin. Denis est parti aujourd'hui, en jour de Saint Patrick. Il illuminera le ciel avec sa joie naturelle de vie. Nous avons habité dans la même communauté pendant les deux années que j’ai étudié à Paris. Nous avons échangé beaucoup d'histoires, beaucoup de sourires, de rires, nous avons dansé, nous avons suivi un couple qui s’a préparé au mariage, nous avons beaucoup parlé de l'éducation, car il savait que j’allais venir à un collège. En deux ans, il était pour moi un maître, dans l'amitié, d’être jésuite, d’être prêtre. Le jour où je pris congé de lui à la sortie de Paris, il m'a dit : « Paulo, n’avais pas peur d'ouvrir des horizons. Notre Dieu ouvre les cœurs. Il ne les ferme pas ». Je crois en la joie avec laquelle Denis est dans les cieux... et c’est avec « saudade » que je pleure le départ d'un grand Compagnon et Ami. « A bien tôt, Denis… en ce jour de ton départ au Ciel, mon dit qu’il y a un nouveau être à arriver en ce monde » 

 [PT] As pessoas devem ser homenageadas quando podemos dar um abraço. Há quem não goste, por sentir o incómodo de não ter necessidade de mostrar que fez o bem, em gestos ou palavras. Mas, ainda assim, as vidas deveriam ser cheias de homenagem e de homenagens. Cada “bom dia” deveria ser um reconhecimento da importância dessa pessoa no nosso caminho. O Denis partiu hoje, em dia de São Patrício. Irá iluminar o céu com a sua natural alegria de Vida. Vivemos na mesma comunidade nos dois anos que estudei em Paris. Trocámos muitas histórias, muitos sorrisos, gargalhadas, dançámos, acompanhámos um casal na preparação para o casamento, falámos muito de pedagogia, desde que soube que vinha para um colégio. Em dois anos foi para mim um mestre, na amizade, no ser jesuíta, no ser padre. No dia em que me despedi dele, na saída de Paris, disse-me: “Paulo, não tenhas medo de abrir horizontes. O nosso Deus é de abrir corações e não de os fechar!” Acredito na alegria com que o Denis está no céu… e é com saudade que choro a partida de um grande Companheiro e Amigo. “A bien tôt, Denis… no dia em que partes, fico a saber que um novo ser vem a caminho!”

quinta-feira, 16 de março de 2017

4 anos de diácono






O cenário é o do quotidiano. Mas, a foto, por se achar piada ao padre a lavar tachos e panelas onde se preparam febras e salsichas, marca a alegria de 4 anos de diácono. Um padre que não vive a diaconia, ou seja, o serviço, nunca será um bom padre.

P.S. - Tenho estado mais desaparecido. Esta semana estamos a viver a Semana Inaciana no Colégio. E absorve muito tempo coordenar todas as actividades. Aliás, a foto é tirada depois de se ter vendido muita bifana e cachorro. ;) 

Na próxima semana, voltarei como de costume. 

sexta-feira, 10 de março de 2017

personagens 3D






[Coisas na vida de um padre] A experimentar programas de reconhecimento facial em 3D. E daqui ainda vai sair uma personagem... outra, já que naturalmente sou uma. 

ternura





Reuters/Brendan McDermid

[Secção outros tons – em paragem no meio da azáfama dos preparativos da Semana Inaciana]

o toque
reveste-se de ternura

segredos sentidos
pela pétala de magnólia

ambos sabemos
dos nomes escritos
na palma da mão

humana e divina

quinta-feira, 9 de março de 2017

Quaresma e liberdade




Romeo Doneza

Houve tempos em que não gostava nada da quaresma. A imagem que rapidamente me vinha ao pensamento era a da penitência e sofrimento. Como padre, apercebo-me que, infelizmente, ainda anda por aí esse modo de viver a quaresma: "quanto mais sofrimento melhor, afinal Jesus sofreu por nós e nós somos uns ingratos." É certo que sofreu. É certo que pode haver ingratidão. No entanto, a quaresma, em toda a sua beleza, leva ao reconhecimento do imenso que somos e que desconhecemos, em especial diante de Deus, que deseja o nosso crescimento pessoal e comunitário. No meio de tanto ruído, exterior e interior, há notas perdidas que não são tocadas na sua harmonia. Por isso, ter tempo para mim, deixando silenciar o coração, faz-me perceber a força do grito ou do simples sussurro a viver com Deus. Ao libertar o que levo atravessado, as mãos desprendem-se e posso servir melhor. O caminho de quaresma, passa pelo silêncio, pelo desprendimento e pela entrega. Ao ler os textos propostos para este tempo, tal como no Advento, vejo a riqueza do que nos é dado rezar. O sofrimento pode fazer parte da vida, mas a Vida é convite de passagem para a alegria da autenticidade.

quarta-feira, 8 de março de 2017

Perspectivas




[Secção outros tons - especial dia da Mulher] Perspectivas... ou oportunidade de ver pormenores na existência do outro, seja de perto ou de longe que ajudam a complementar a vida. É o exercício da abertura de visão e de mentalidade. Flores, é isso, flores e lua em céu azul.

Em dia da Mulher...




Dasha Horita

[Escrito há um ano, mas, infelizmente, ainda muito actual] Há coisas que não são de escrever ou dizer, mas de simplesmente fazer. Neste caso, agir em tudo o que leve à dignidade humana, seja em género feminino ou masculino. Parece-me que tem de haver a complementaridade que dá sentido à evolução humana. No entanto, infelizmente, há que marcar em datas o recordar de que a Mulher não é, nem escrava, nem adorno, nem, como ainda em tanto sítio passa, um ser de segunda ou de terceira. O ponto fundamental: a educação. Educar cada menina, rapariga, mulher a viver o respeito por si própria. Educar cada menino, rapaz, homem a viver o respeito por si próprio. Educar ambos para respeitarem o outro, com igual dignidade, fazendo os possíveis para que todos, em especial as mulheres por serem as que mais sofrem, possam ter educação e os seus direitos respeitados. 

terça-feira, 7 de março de 2017

Mistério e fé e perguntas




[Secção amanhecer de quaresma] Passar a fé de um problema a um sentido de mistério que se aprofunda... e tanto pode ser a fé em Deus, como no ser humano. 

Texto da foto: in Paciência com Deus de Tomás Halík, p.37.

domingo, 5 de março de 2017

Tentação



[Secção outros tons] A tentação faz parte do pó terreno cada dia pisado. Também moldado, ficando com marcas de divino em alento insuflado. A grande tentação que leva à perdição é a do poder que oprime e divide. A escuridão é ultrapassada pelo serviço. E quando se ama, mais luz surge a mostrar caminho de encontro. 

quinta-feira, 2 de março de 2017

Liberdade: coisa divina




Quoc Loc

A liberdade é coisa divina. A sua grandeza reside na capacidade de dirigir-me para a essência do bem. Ponto. As decisões que possa tomar, daquelas que implicam vida, seja numa viragem radical, seja em palavras que escrevo ou profiro, só revelam liberdade quando promovem a liberdade do outro. Daí o divino. Deus quer cada um de nós para si, no amor que ama toda a beleza e toda a imperfeição, sem qualquer sombra de rejeição (em Deus habita Luz). Ao querer-nos para si, quer-nos livres... ao ponto de o podermos rejeitar, de nos podermos rejeitar. A liberdade é coisa divina. Quando a vivemos, sem prisões de emotividades reaccionárias, há sempre crescimento, em especial da dignidade. E a cruz, nossa, que se toma, ganha contornos de "+", permitindo o crescimento da alma para a liberdade.

quarta-feira, 1 de março de 2017

Encontros comigo e com Deus




[Secção outros tons - especial dia de Cinzas] “Rasgai os vossos corações”, ouve-se desde o Profeta Joel neste dia de Cinzas. Terra, barro, pó, caracterizam a nossa existência. O coração rasgado é sinal que perde a pedra ou as pedras que o rodeiam, reconhecendo o limite e o tempo de maior recolhimento. Mais do que penitências desmedidas e negrumes estéreis de sentido, abre-se o tempo privilegiado da escuta terra-a-terra, deixando queimar o que afasta da Vida. Em tempo de escuridão, o coração rasgado permitirá entrar luz, tornando a cinza adubo que fortificará os dons do Espírito. É peregrinação até ao suave amanhecer de Páscoa. 

[Vídeo: Andrés Waksman - proposta: conectar comigo e com Deus - música: Dalur de Ólafur Arnalds & Brasstríó Mosfellsdals]

Regresso




Nestes dias que estive mais comigo, o silêncio marcou presença em dança, em rostos, em histórias e em escuta. Quarta-feira de cinzas, um bom dia para regressar... ao coração que se converte.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

Pausa



David Corte

[Secção pausa merecida] Ontem escrevi sobre o descanso, pois… hoje digo que volto daqui a uns dias. Bom Carnaval. ;)

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

Importância do descanso




Mike Melnotte

[Escrevo um artigo sobre (in)felicidade nas organizações. Com a aproximação da paragem lectiva de Carnaval, partilho este parágrafo:] 

Sem que se absolutize o famoso sétimo dia da criação, percebemos a importância das paragens para a felicidade. Melhor, para saborear a felicidade presente na Vida. As pausas, em folgas ou férias, não são um luxo, mas uma necessidade para que cada pessoa possa restabelecer o seu equilíbrio humano, onde se inclui o produtivo. Já se legislou tempos de trabalho e tempos de descanso, começa-se a entrar no cúmulo o ter de se legislar sobre horas de leituras de mails profissionais. Algo tão natural deve ser o respeito pelo tempo livre de quem trabalha, dando-lhe tempo e espaço mental e afectivo para algo tão importante como a família, os amigos ou, simplesmente, estar consigo mesmo.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

Agradecer



Eric Songbill

Há dias cheios. Ao chegar a casa, detenho-me no primeiro ponto do exame de consciência: agradecer. Nem faz sentido seguir para os outros pontos. Revejo os momentos, as pessoas, os pequenos e grandes “olás” pelos corredores fora, as aulas em que alunos expressam de alma palavras que falam de liberdade e criatividade, as boas conversas que o bosque sempre proporciona… e agradeço. Nas leituras de hoje, dia da cátedra de S. Pedro, Jesus dá ao apóstolo o poder de ligar e de desligar o céu e a terra. Sem qualquer pretensão de sentido papal, fica-me, sim, o eco de que cada um de nós pode ser pontífice, na construção de pontes que promovem encontro, amizade, que ajudam o caminho de aprendizagem. E o mundo expande-se na beleza de mistério em revelação. No final deste dia, simplesmente, agradeço. 

terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

Deus da Paz



Faisal Mahmood/reuters

- P. Paulo, podia arranjar-me uma bíblia em árabe?
[Como conversamos com o tradutor do google, quis certificar-me:]
- Bíblia ou Corão?
- Bíblia. Nós somos muçulmanos, mas não radicais. Quero saber mais.
- Irei encontrar, sim.
- Também quero ir à Igreja. Temos de rezar com quem nos acolhe tão bem.
- Então, combinamos um domingo que possam, venho buscar-vos e vamos à celebração que eu costumo ir.
- Com muito gosto. O Profeta não é da violência, como muitos têm feito em nome dele.
- O nosso Deus é Deus da Paz.

domingo, 19 de fevereiro de 2017

Reconciliação




Kátia Viola


[Coisas na vida de um padre] Há leituras e vidas que me fazem muito eco. Ficam a flutuar no pensamento e no coração, nesse desejo de realização, de concretização, de consistência, de que nos possamos comprometer a caminhar no sentido da reconciliação, onde podemos dar a outra face, mostrando diferentes perspectivas no amor aos inimigos. Não é gostar deles, nem tomar café com quem não se estabelece relação, mas, mostra-se que não se deseja a morte e combate-se o mal com o bem. Isto é caminho de vida. Afinal, como templo do Espírito que sou, que somos, os gestos transparecem a imagem e a semelhança de que somos feitos. Quero que os meus gestos encarnem reconciliação. Desejando que todos se aproximem do altar onde Deus se faz presente em mistério de entrega, na celebração da missa de hoje convidei as pessoas, que seja qual for o motivo não comungam, a se aproximar do altar… e dei-lhes a benção. Nos olhares, houve encontro. Nas despedidas, emoção e agradecimento… de parte-a-parte. Antes de desparamentar-me, dirigi-me ao Santíssimo e agradeci, mais uma vez, a vocação de reconciliar.

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

TEDx Santo Tirso




[Secção coisas de corpo] Acabo de receber a mensagem: "Olá! O vídeo do TEDx já está, finalmente, no nosso canal do youtube." Obrigado, mais uma vez, TEDx Santo Tirso, pela oportunidade. Aqui partilho.

Autoridade





Itsuo Inouye/AP

[Secção desabafos] As figuras de autoridade dão pautas para o grupo de que são responsáveis: a nível social (um presidente, um ministro, um director, um professor, um padre, etc.) e a nível moral (um médico, uma figura pública de relevo, como um jornalista, um actor, um músico, um futebolista,…). Essas pautas são tidas mais em conta conforme a relevância do poder e carisma dessa pessoa. Não nos admiremos, então, que subtilmente se legitime a mentira, a incoerência, a violência nas palavras e actos, a banalização da responsabilidade, nestes tempos de “pós-verdade”, “factos alternativos” e emails e sms que, apesar de "privados", tratam da vida de tantos. Enfim, pormenores… 

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

Estrelas




Rhys Logan

[Coisas, assim, logo de manhã…] 
- P. Paulo, hoje de noite passei pela janela e uma estrela brilhou mais forte. Será que foi o meu avô a piscar-me o olho?
- Que lhe parece?
- Só pode ser ele. Uma vez contou-me que as pessoas boas nos piscam o olho lá do céu.
Sorrimos. Abraçámo-nos. E seguiu para a aula.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

domingo, 12 de fevereiro de 2017

Jornadas Inovação Pedagógica SJ




 Nelson Matias

Foram ontem as primeiras Jornadas de Inovação Pedagógica SJ, com educadores, docentes e não-docentes, dos três Colégios da Companhia de Jesus em Portugal. O painel de oradores não veio do exterior, mas do imenso que já se faz em cada um dos Colégios. O foco principal: como ajudar os nossos alunos a crescer humanamente, entre o equilíbrio do académico e dos valores que contribuem para o sentido do serviço, no mundo que mudou e continua em mudança. Não podemos ficar presos ao “sempre foi assim” (vá-se lá saber o que é esse “sempre”), nem ao “está tudo mal, há que mudar tudo” (vá-se lá saber o que é esse “tudo”), mas perceber o fundamento da educação, numa Escola adaptada às pessoas da actualidade e não do século passado. Dentro das características da Pedagogia Inaciana, encontramos a importância da pessoa com talentos e virtudes, criada à imagem e semelhança de Deus, chamada a servir neste mundo concreto. Esperemos pelas próximas.

sábado, 11 de fevereiro de 2017

Divagações




Na imagem, texto de Daniel Faria


[Divagações de uma noite de Sábado] Tenho sentido a minha escrita emperrada. Desde há dias que sinto isso. Sento-me para escrever e não consigo afastar a sensação de vazio na criatividade. Escrevo. Apago. Escre… e fica a sensação de espera. “Não é tempo. Guarda-te no sentir!” Penso um pouco e apercebo-me que o Silêncio, melhor, o efeito do Silêncio ainda ecoa em mim. É cada vez maior o ruído das coisas. O tempo para sentir e pensar diminui drasticamente, pedindo-se, exigindo-se ou determinando-se opinião de forma vincada como se o amanhecer e o entardecer fossem blocos mono-colores. As penumbras exigem passadas calmas, sem grandes correrias. Assustamo-nos com o rumo político, onde a verdade diluí-se conforme o poder em causa e os povos caminham em extremos que deixam de escutar o pensamento diferente. A Fé reduz-se à fezada, perdendo a força de testemunho de vida, ganhando contornos de moralismo, aplicando-se isto tanto aos fervorosos crentes do divino, como aos do não-divino. Durante a celebração da Missa, no momento da consagração, nessas palavras que d’Ele repetimos com toda a dignidade, pensei: serás Tu uma regra?… “isto é o meu Corpo”… não, és corpo, com movimento que estimula o passo. Dignidade não pode ser rigidez. Dignidade é consciência do imenso e  pouco que sou, no meio de imenso e pouco em cada outro, com história… “fazei isto em memória de Mim”. Essa memória faz-me ir aos textos e ver-Te a ser desafiado e a silenciar, a curar e a silenciar, a pregar e a silenciar, a denunciar e a silenciar, a criar e entregar novos caminhos apenas compreendidos pelos que amam. E amar não permite cópias, clones de corpo e de alma… até mesmo de fé. Amar significa atravessar trevas, aprendendo da sua maestria, e reconhecer a luz irradiante que deseja e comunica vida. A fé é simples de explicar na teoria… no entanto, aquele pedaço de Pão em Corpo, amante e amado, desalinha todas as histórias. Não é por acaso que só se compreende em silêncio de Sexta-feira e de Sábado santos. Esses são dias nada amados, mas transformam a compaixão em certeza de Vida… a que se quer profundamente alegre. Se os dias são passagem, o amor é o ficar, demorado, saboreando o chá de jasmim acabado de servir.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

Aula




Visto assim, parece algo sem sentido... quando o sentido foi, numa aula de EVT de 9.º ano, aliar meditação, emoção e saída do quotidiano, em música, corpo e desenho. No final, houve silêncio e vontade de repetir.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

Reconhecimento rotário




[Secção coisas na vida de um padre] E assim terminou um serão. Agradecido, é como me sinto, pelo convite e oportunidade de partilhar algo que ajude e promova a Paz.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

Vida frágil



Mais uma vez, Daniel Faria. Hoje, no dia da partida de mais um amigo. A vida é frágil. Vale-nos a força do amor e da bondade: beleza engrandecida, dando importância ao essencial.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

Momento




Apenas o registo da beleza do momento… em flor presenteada. 

Temas de conversa




Dolors Bas

[Secção coisas de corpo] Há constatações sobre o corpo de alguém que podem ser bastante indelicadas. “Ah, já há tanto tempo que não te via: estás mais gorda, mais magro, com menos cabelo, mais brancas, já se notam as rugas…” Pois, o que pode ser uma constatação “de nada”, por detrás pode haver, igualmente “nada” como a natural alteração corporal, ou questões mais delicadas que não se quer expor publicamente. Enquanto corpo que somos, pode estar a acontecer algo muito mais para lá da dimensão física. E respeitar o acontecimento do outro é pôr-me nesse lugar. Se é difícil… então, o tempo será sempre um adequado tema de conversa.


domingo, 5 de fevereiro de 2017

Luz




[Secção outros tons] A mesma Luz, em diferentes tons. Ou o modo como Deus incide, vive, brilha, em quem se deixa amar.

sábado, 4 de fevereiro de 2017

Estatísticas



[Secção coisas] Achei estranho o disparo de visualizações no blogue. Vou ver: o aumento vem dos Estados Unidos e da China. Atenção, agentes secretos infiltrados pelo blogger, facebook e afins, eu não tenho problemas em dizer que não concordo medidas políticas do actual presidente dos Estados Unidos. E sim, assumo que publiquei há tempos um vídeo sobre ameaças a um jornalista da BBC que tentou entrevistar uma candidata independente à Câmara Municipal de uma terra lá da China. Se sou perigoso, espero que seja apenas pelo “peace and love”. Agradecido. Thank you. 谢谢. ;)

Sobre o Silêncio




Nuno Branco,sj

Quanto mais leio sobre o filme Silêncio, de Martin Scorsese, mais vontade tenho de fazer e viver 

Silêncio
uma gota de chuva
desliza sobre a janela

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

presente da humanidade




Yudith’s Journal


[Secção desabafos] Vi ontem um vídeo que continua a atravessar-me o pensamento.  Não o partilho propositadamente. Foi publicado numa página de armas, como exemplo de maravilhamento na recepção de um presente de aniversário. Aqui começa a primeira agitação. Mas, a grande, é ver a emoção de uma criança, entre os 10 e os 12 anos, quando recebe uma espingarda xpto. Não é de brincar. É uma espingarda que disparará tiros reais… que podem matar. A criança, com ar inocente próprio da idade, emociona-se ao receber o presente da vida. Em muito, as crianças são reflexo do que as rodeia. “Childern see, children do” [as crianças vêem, as crianças fazem] foi um spot publicitário que surgiu há tempos para alertar os pais em como a educação passa pela imitação. É assustador pensar que uma criança possa ter, como se fosse o mais natural da vida, uma arma como presente. Gostava de pensar que este seria um caso isolado, mas, pelos comentários, havia quem defendesse e achasse normal. Para mim, o normal, é que se presenteie as crianças, mais do que com coisas, de forma especial com tempo, atenção e orientação. Elas aprendem mais com o que somos, as nossas atitudes, que com o que lhes dizemos. Como tantas vezes repito, elas (no fundo, todos nós) não são (somos) o futuro, mas o presente da humanidade.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

Dia do Consagrado




Lidia Chaulet


[Celebramos hoje de forma especial o dia do consagrado. Repesco um texto que escrevi há uns anos.] Faz sentido consagrar a vida a Deus? Sim, se se perceber que ser religioso(a) é viver e servir no mundo concreto e não idealizado. Sim, se não se vê como um heroísmo, mas como outro lado da humanidade. Sim, se o passado, a história, os pecados perdoados não são motivos de vergonha, mas de compaixão com a fragilidade dos outros. Sim, se apesar do medo ou inquietação, a confiança na denúncia da injustiça ante os que mais sofrem fale mais alto. Sim, se as conversões quotidianas levem à humildade que afirma: “Não somos melhores, somos simplesmente diferentes no encontro com Ele”.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

Aula dos sonhos




[Aula com alunos do 6.º ano] Já andavam a pedir há muito: “Stôr, quando é que temos a aula dos sonhos?” Como estou a falar da Bíblia, aproveitei a deixa dos “sonhos bíblicos”, para… “então, vamos sonhar?” A exaltação geral: “é hoje!” Acho fascinante os seus brilhos de olhar a querer partilhar os sonhos. Fui por ordem e, como de costume, escrevi no quadro o sonho que iam partilhando: sentir ‘borboletas’ na barriga; superar a minha vergonha; transformar as pessoas más em boas; voar (este é influência do professor ;) ), ser o melhor guarda-redes do mundo, etc. No final, a deixa: “guardem bem os sonhos no coração e dêem o vosso melhor para os realizar.”

terça-feira, 31 de janeiro de 2017

Palavrões




Nancy Bumpus

[Secção desabafos] Se as crianças dizem palavrões? Sim, dizem. Ouve-se aqui e ali, no pátio da escola, na rua, no autocarro, no café ou em casa, de forma mais ou menos cultural, como ofensa ou libertação de tensão. Pode ser dito “caneco”, “flor amarga”, “filho de mel” ou outro neologismo qualquer para ir a esse palavrão que se quer evitar. Justifica-se com isso usar no ensino escolar? Recordo sempre o riso envergonhado quando lemos, no meu ido 9.º ano, “a puta da badana” no Auto da Barca do Inferno de Gil Vicente. O importante é perceber que na educação nem tudo é válido, nem tudo é evitável, mas tudo pode e deve ser conversado de acordo com a idade e a maturidade. Afinal, não lidamos com massas informes, mas pessoas concretas com maturidades e histórias de vida muito diferentes. Mais uma vez, a educação não pode ser uma deliberação de gabinete… implica muito de terreno, com trabalho pessoal e colaborativo entre educadores (nesta palavra incluo encarregados de educação, docentes e não-docentes) e alunos. Depois, discussões em praça pública a partir de superficialidades de parte a parte apenas provoca o que vai sendo cada vez mais natural: gritos, berros, acusações. Quem perde? Todos nós! Para ganhar, que haja reflexão séria… não tanto pelas leituras do Plano Nacional de Leitura, mas pela percepção de que a Educação é mais séria do que se quer crer na construção da Sociedade.